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Cão bravo ou com medo? (03/08/2011)

Barulho alto, visita estranha, passeio na rua. Para os pets, qualquer coisa é motivo de agitação (ou mesmo escândalo), mas cachorros que vivem com medo de tudo não são somente um incômodo para os donos. Esses animais sofrem uma grande dificuldade de socialização e vivem sob constante estresse o que pode prejudicar sua qualidade de vida. Para evitar constrangimentos, mordidas e até problemas de saúde, cabe aos seus proprietários buscar um profissional para descobrir a raiz do trauma e corrigi-la.

Quando Natália Cardoso, de 23 anos, decidiu adotar um animal, optou por acolher um pet que realmente precisasse. A escolhida foi Sookie, uma vira-lata que, apesar da pouca idade, já havia vivido uma história nada agradável: fora vítima de maus-tratos. As mudanças de personalidade começaram a incomodar aos seis meses de idade, quando ela foi levada a uma consulta de rotina. Apavorada com a presença de outros animais, tornou-se agressiva e dificultou o andamento dos exames. “Ela já tinha medo. Quando via outros cachorros na rua, já puxava a coleira, mas, como não tenho outros cachorros, não ligava”, lembra Natália.

Ainda, embora Sookie nunca tivesse chegado a fazer mais do que ameaçar, a sua médica veterinária sabia que o medo não era saudável e que algo teria de ser feito.

A solução foi levá-la para um treinamento no qual a mascote estivesse sempre em contato com outros cães. Em um mês sua dona já notou diferenças no comportamento da vira-lata, agora mais calma e sociável: “Agora Sookie só tem medo de água; acho que é porque ela caiu em uma piscina quando era filhote”.

Cachorros como Sookie são dóceis e amáveis com o dono, mas se transformam completamente quando encaram seus medos. “Quando o proprietário diz que o cão é bravo, costumo verificar a veracidade da informação. Os donos confundem muito a personalidade violenta com o medo”, alerta o veterinário Fábio Garcia.

Conforme o médico, são raros os casos de desvios de comportamento que causam a agressividade gratuita: quase sempre o cão tem algum motivo para ficar irritadiço. “E se o proprietário começa a ter medo do cachorro, ele só vai reforçar esse comportamento. Daí o dono acaba se livrando do animal”, critica.

Por isso uma simples visita ao veterinário pode se tornar uma dor de cabeça quando o cachorro reage às suas fobias: o ambiente com pessoas estranhas, outros animais e objetos desconhecidos é um prato cheio para uma cena. O veterinário precisa então lançar mão de métodos como a contenção física ou mesmo a sedação. “Costumo dizer que quanto mais trabalho o cachorro der, pior para ele e para o proprietário”, ressalta Garcia.

Mas o drama na hora dos passeios e da consulta não é o pior dos problemas. O animal que vive sob condição de estresse pode desenvolver distúrbios como a lambedura acral (compulsão por mordiscar as extremidades do próprio corpo), queda de pelo e gastrite. Para evitar o pior, o ideal é levar o animal para uma consulta com um adestrador, que irá descobrir qual fobia causa tanto sofrimento: a presença de estranhos, barulhos altos, certos objetos ou todas elas combinadas.

Essas aversões podem ter origem genética ou serem adquiridas na fase inicial da vida, mas apenas o medo aprendido pode ser eliminado por meio do adestramento o animal que já nasce com o transtorno pode apenas tê-lo minimizado. “Sabemos a diferença por meio de testes, pois nem sempre um cão medroso, que teve uma mãe medrosa, por exemplo, nasceu assim. Ele pode aprender isso com ela”, esclarece o adestrador Pablo Weblan. Até os 60 dias de vida os cães são profundamente afetados por influência materna, do meio em que vivem ou do tratamento que recebem.

Para evitar o transtorno, o ideal é manter o filhote em um ambiente seguro, livre de barulhos e agressões, mas, quando eles completam dois meses, a rotina se inverte: o cãozinho precisa passear, fazer exercícios e conhecer novos cachorros e pessoas. Cachorros criados longe de qualquer estímulo costumam interpretar mudança de cenário como uma ameaça: se, por exemplo, ao receber uma visita, o dono se apressa em recolher o cachorro nervoso e em acalmá-lo, o bicho entenderá que houve um motivo real para o comportamento agressivo.

O ideal é não privar o mascote de seus medos nem protegê-lo; seu proprietário pode expô-lo ao que o incomoda, mas permanecendo sempre ao seu lado. “O medo é natural, mas se o dono poupa o cachorro por querer proteger um animal inseguro, ele fica submisso. Tem até cachorro que usa essa chantagem emocional para conquistar o dono e controlar a casa”, resume Weblan.

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